Poemas
No prefácio, José Régio considera o autor, Reinaldo Ferreira, um "poeta contemporâneo dos poetas da Presença, incluindo-o numa linha de tradição que passa pelo segundo modernismo no que ecoa da inquietação religiosa regiana ("Onde estão os sinais que Deus envia? / Onde estão, que os procuro noite e dia / Sem nunca ver cumprido o meu desejo? // Não os vejo e não sei se eu, que os procuro, / Os não encontro porque sou impuro, / Ou sou impuro porque os não vejo." "Visitação"), e que passa, ao mesmo tempo, pelo diálogo textual com o Pessoa ortónimo, nomeadamente ao nível de uma "fusão do intelectual e do sensível". Com efeito, revelando muito pouco do contexto histórico ou geográfico em que foi produzida, a poesia de Reinaldo Ferreira situa-se de forma quase atemporal no cruzamento dos vários feixes que compõem a tradição lírica portuguesa, fazendo-se sentir nela quer a leitura do modernismo, como referira José Régio; quer outras heranças, como a dos simbolistas (cf. poema "Chopinesque" onde o verso recria o ritmo musical dos noturnos de Chopin), a da prática do soneto enquanto súmula de uma reflexão filosófico-religiosa, na linha de Antero; ou até a da tradição poética popular (cf. "Menina dos Olhos Tristes").
A "introdução" anónima (provavelmente da autoria de Eugénio Lisboa), incluída na primeira edição de Poemas, em 1960, aponta, como ponto de partida para o estudo da poesia de Reinaldo Ferreira, a possibilidade que a palavra poética, enquanto trabalho de construção de uma obra formalmente perfeita, tem de redimir um poeta tematicamente obsidiado pela procura de um sentido para o devir humano ("Domina-me um terror incoerente / Do Nada, da final insensação... / por isso creio em Deus com Fé demente, / Por medo, por defesa, com paixão. // Se busco todavia uma razão / Que fortaleça a Fé de que sou crente, / Tortura-me o saber que tudo é vão, / Que tudo se aniquila finalmente."), oscilando entre a esperança da fé e a resignação no aniquilamento ("Flor ou bicho / Ou criatura, / Tudo é lixo / Na sepultura." ("Flor de Lapela"), aspirando à inanidade, à impassibilidade: "Feliz do que é levado a enterrar, /
Tão indiferente como quem nasceu! / Feliz do que não soube desejar, / Feliz, bem mais feliz do que sou eu!". Diante da incapacidade de acreditar num princípio unitário (amoroso, religioso ou filosófico) onde se resolvessem as contradições da existência, "o artista submete-se a uma convenção, uma 'regra de jogo', um ponto de apoio, que, só universalmente aceite, poderá transformar-se num princípio geral de ordem: referimo-nos à forma [...] [que] aparecida como regra de jogo livremente aceite e não como dogma revelado e portanto imposto, vem miraculosamente salvar o desesperado do total desespero, ou o total descrente de um completo desabar" ("introdução" anónima incluída na primeira edição de Poemas).
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