Poesia
Antologia da obra poética quase completa de Cristovam Pavia, reunindo 35 Poemas, esparsos e inéditos, organizada por António Luís Moita, António Osório, João Filipe Bugalho, Pedro Tamen e José Bento, sendo da responsabilidade deste último poeta a introdução, notas e comentários.
Embora se detete na sua poesia uma vaga influência das leituras de Rilke, dos imagistas americanos e do pai, o poeta presencista Francisco Bugalho, o desdobramento do eu, assumido frequentemente na alteridade do "Menino" (cf. "Requiém" ao menino morto, eu próprio, in 35 Poemas), ou no uso da terceira pessoa em formas como epígrafes, elegias e epitáfios, ou ainda a expressão do aviltamento do eu ("Eu sei que sou um vómito de Deus / Com ânsias lassas de voltar aos Céus", "Pântano", Poemas Inéditos) enquadram Cristovam Pavia na tradição poética de Mário de Sá-Carneiro e António Nobre.
Optando por formas breves e de grande concentração expressiva, próximas frequentemente do género discursivo oração (cf. MARTINHO, Fernando J. B., 1996, pp. 251-252), e pelo verso livre, musicalmente cadenciado, a poesia de Cristovam Pavia descreve ainda um itinerário ascético e místico, uma via dolorosa, cujas etapas e experiências se revestem de um sentido enigmático (id., p. 253), descrevendo a busca da alma, "Com sede e desgrenhada impaciência", "do mais puro da Essência" (Inéditos); momentos de aridez e exaustão ("Eu preciso que Deus me dê o descanso do vácuo"); o estertor e a resignação numa "vida cansada, vazia de amor e de esperança"; o despojamento de si; a gratidão pelo martírio ("obrigado por esta solidão que me esfarpa e me liberta", "Gratidão"); a fé no carácter redentor do sofrimento: "creio neste amor magoado". O poema resulta então da experiência extática de arrebatamento, da saída mística da alma para a união divina: "(...) Quando sinto em mim a luz de talvez Deus / (Uma luz que me atira fora de mim / Para espasmos, e apertões, e cambalhotas.) / Nesses momentos encho os Céus / C'o a minha alma dilatada pela febre sem fim, / E nas ruas fecham-se as portas, / E eu escrevo poemas sem ritmo nem rima... / Depois, a pouco e pouco adormece-me a vida/ Sobre um enxergão imundo; / Minh'alma comprime-se, entra dentro de mim, novamente, / E dorme um sono profundo", "Poema", Poemas inéditos).
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