Poeta Militante: Viagem do Século Vinte em Mim
Poeta Militante reúne a obra poética completa de José Gomes Ferreira, publicada já quase na sua totalidade - com exceção dos inéditos Viagem do Outro Lado e Circunstanciais - nas seis coletâneas de Poesia.
O título e o subtítulo da obra apresentam-se como chaves de leitura aparentemente equívocas: como esclarece em "Memória das Palavras", "poeta militante" não remete para a conotação de militância política, verificada em vários poetas neorrealistas, mas para um poeta empenhado na própria poesia, um poeta "militante da poesia total" (ibi.), do mesmo modo que "Viagem do Século Vinte em Mim" não pretende exprimir a intervenção ou reação direta aos grandes acontecimentos do século, mas o testemunho poético de um "anti-herói" que, de acordo com a nota de abertura ao primeiro volume, "atravessou em bicos de pés" o século, "mais preocupado com as coisas vulgares do quotidiano nos cafés, nas ruas, nas praias, no campo".
Não sendo de excluir também nesta nota uma capacidade de auto-ironia que lhe é peculiar, a verdade é que a quase totalidade dos poemas são datados por epígrafes que insinuam como ponto de partida para a inspiração acontecimentos históricos precisos, correspondendo essa "viagem em mim" à resposta afetiva de um poeta que, diante da injustiça social, de acontecimentos graves da humanidade ou de sugestões aparentemente insignificantes, reage de forma pretensamente espontânea: grita, berra, apaixona-se, cala-se, ama, odeia, torce pescoços de fantasmas, denuncia, e espanta-se "Do que afinal sempre espantou os poetas dos séculos de sempre.
De haver injustiças e de estrelas." (nota introdutória ao 1.° vol., 1977). A expressão direta, discursiva e despretensiosa assume-se, mesmo quando essa exaltação é matizada por sentimentos, fingidos ou não, de pessimismo, de remorso, de dúvida, como antilírica, neste sentido de negação de toda a poesia que não seja revolta, protesto, indignação, exortação. "Ah! Poetas: não olhemos mais para o céu./ Deixemos os mistérios para depois/ quando não houver na noite/ outras razões de sofrer mais vis. [...]
Abaixo as estrelas, a lua, a via láctea./ e todo esse espetáculo de luzes/ como um candelabro de cometas/ a iluminar a festa da miséria/ no palácio do mundo." (in "Panfleto contra a paisagem", 1936-37). No entanto, a tendência histriónica do seu estilo declamatório levanta o equívoco sobre a crença do autor na capacidade de a poesia poder influenciar ou não a transformação política e social, e é nessa medida que Mário Dionísio (prefácio à 3.a edição de Poeta Militante) considera que a obra de José Gomes Ferreira não integra uma expressão estética típica da visão marxista do mundo da literatura neorrealista.
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