Sandra
Quando o protagonista-narrador-sujeito lírico de Para Sempre, Paulo, regressa à casa na aldeia onde projetara viver os anos da aposentação, recorda, por fragmentos, a recém-falecida esposa, Sandra, de "cabelos pretos pelos ombros, olhos rígidos negros".
Na reconstrução dessa história de amor, evocada em momentos como o namoro, o casamento, o nascimento da sua filha, a doença e morte da esposa, o sentimento de perda de um tempo de plenitude, situado nos anos de amor e juventude, dão ao narrador a consciência irremediável da sua solidão, e levam-no a confrontar-se, pela primeira vez, com o absurdo da sua condição de ser humano, acidental, efémero.
Sandra, ou melhor, o fantasma de Sandra, é assumida, então, como um dos interlocutores privilegiados pelo seu discurso, compaginando com outros destinatários, nomeadamente com o tu, que tanto é um eu desdobrado, num auto-interpelamento constantemente atravessado por resíduos de diálogos, seres ausentes ou mortos, cenas, rostos, memórias, como o próprio leitor ("Que te dá pensares-te o ramo que se suprimiu?
A árvore existe e continua para fora da tua acidentalidade suprimida. O que te distingue e oprime é o pensamento que a pedra não tem para se executar como pedra. [...] Funda aí a tua grandeza se quiseres, mas que reconheças e aceites a grandeza que te excede. Há uma palavra que deve poder dizer isso, não a sabes - e porque queres sabê-la? É a palavra que conhece o mistério e que o mistério conhece - não é tua. De ti é apenas o silêncio sem mais e o eco de uma música em que ele se reabsorva. [...] É a palavra final a da aceitação".
Neste contínuo diálogo in absentia, o discurso dirigido a Sandra aproxima-se de um discurso amoroso, onde a necessidade de falar do ser amado equivale a dar-lhe de novo existência e a reinventá-lo ("Vou fazer-te existir na intensidade absoluta da beleza, na eternidade do teu sorriso. Vou fazer-te existir na realidade da minha palavra.") e a necessidade de falar com o ser amado visa continuar uma declaração de amor tornada impossível pela morte ("Como vou suportar a vida toda e a terra e o universo sem ti no centro da minha cosmogonia?").
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