Sobre o Romance
Neste ensaio, Adolfo Casais Monteiro esboça um pequeno historial do romance contemporâneo, dividindo a sua cronologia em duas etapas que têm como marco capital, numa caminhada que tem como ponto de chegada o romance psicológico, a obra de Dostoïevski, romancista que "deu o primeiro lugar à análise em profundidade e, simultaneamente, fez passar à frente do estudo do indivíduo dependente do meio o seu estudo como personalidade irredutível, na sua essência, à ação exterior":
"Até Dostoïevski o romance segue um caminho que poderemos dizer, parece-me que sem atentar contra a verdade, de fora para dentro: com o genial russo surge-nos o mundo romanesco com maior predomínio da interioridade psíquica que jamais se revelara no romance" (p. 27). A comparação entre o romance realista naturalista oitocentista, inspirando Flaubert, Zola ou Goncourt, e o romance das primeiras décadas do século XX, devedora das lições de Dostoïevski, Joyce, Proust ou Malraux, leva Casais Monteiro a ver na sua contemporânea oposição entre o "romance social" e o "romance de análise" ou psicológico, uma réplica do "conflito que no século passado - digamos antes: desde o último quartel dele - opôs, na criação romanesca, ao realismo, naturalismo e verismo, uma tendência menos preocupada com aspirações de fazer concorrência à ciência, e mais com exprimir a vida, sem preconceitos escolásticos."
Segundo o crítico, o advento do romance proletário e o populismo consubstanciam uma reviviscência da atitude polémica dos realistas e naturalistas, mas tomando uma "feição social e política" que não possuía no momento do seu aparecimento, e que faz agora com que "a discussão de problemas estéticos entre escritores e críticos" tenham cedido o primeiro lugar "à afirmação de diretrizes sociais que pretendiam sobrepor-se a quaisquer razões estéticas." D
esmonta, por fim, os paradoxos que encerram a defesa da acessibilidade do romance e a existência de um romance feito apenas de luta social e de classes, sem indivíduos, animado por títeres. Aludindo ao panorama do romance nortista brasileiro, destaca Erico Veríssimo como exemplo da capacidade de construir "a dupla figura interior e exterior duma personagem".
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