teatro épico
O conceito de teatro épico diz respeito a um teatro didático que procura uma distanciação entre personagem e espectador para que este seja capaz de refletir e apreender a lição social proposta. Este conceito é apontado, por volta de 1926, pelo poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), que opõe ao teatro clássico e tradicional (teatro aristotélico) um teatro narrativo que em vez de suscitar emoções e sentimentos desperta uma atitude crítica.
O teatro épico, proposto por Brecht, contrapõe-se à tragédia clássica para melhor conseguir o efeito social. Enquanto o teatro clássico conduz o público à ilusão e à emoção, levando-o a confundir o que é a arte com a vida real, no teatro épico a "distanciação" deve permitir o envolvimento do espectador no julgamento da sociedade. Por isso, o teatro épico implica comprometimento, crítica contra o individualismo, consciencialização perante o sofrimento dos outros e a realidade social. Deve, na sua tarefa pedagógica, instruir os espectadores na verdade e incitá-los a atuar, alertando-os para a condição humana. O espectador deve ter um olhar crítico para se aperceber melhor de todas as formas de injustiças e de opressões.
De acordo com Brecht, o teatro épico é um drama narrativo que nos oferece uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar posição. Propõe que o espectador seja um observador crítico capaz de se indignar com as injustiças quotidianas. Para isso, opõe-se à conceção aristotélica de que o espectador deveria sentir o que se passava no palco, naquele momento de representação, e começa a defender o Verfremdungseffekt (ou efeito V), que se pode traduzir por "efeito de distanciação".
Brecht, nos seus Estudos sobre Teatro, fala do efeito de estranheza e de distanciação, que o recurso à história ou a um processo de construção de parábolas permite refletir sobre uma realidade próxima. Brecht propõe um afastamento entre o ator e a personagem e entre o espectador e a história narrada para que, de uma forma mais real e autêntica, possam fazer juízos de valor sobre o que está a ser representado.
O ator deve, lucidamente, saber utilizar o "gesto social", examinando as contradições da personagem e as suas possíveis mudanças, que lhe permitam acentuar o desfasamento entre o seu comportamento e o que representa. Isto permite ao público espectador uma correspondente distanciação à história narrada e, sequentemente, uma possível tomada de consciência crítica, aprendendo o prazer da compreensão do real, a sua situação na sociedade e as tarefas que pode realizar para ser ele próprio.
Este efeito de estranheza e de distanciação acaba por conduzir a uma aproximação entre o ator e o espectador, na medida em que os dois se distanciam em relação à história narrada e podem, como pessoas reais, discutir o que se passa em palco. Ao contrário do teatro clássico não há um efeito alucinatório ou hipnótico que permita tomar a representação pela própria realidade. Afirma Bertolt Brecht (in Estudos sobre Teatro):
"O espectador do teatro dramático diz: - Sim, eu já senti isso. - Eu sou assim. - O sofrimento deste homem comove-me, pois é irremediável. É uma coisa natural. - Será sempre assim. - Isto é que é arte! Tudo ali é evidente. - Choro com os que choram e rio com os que riem.
O espectador do teatro épico diz: - Isso é que eu nunca pensaria. - Não é assim que se deve fazer. - Que coisa extraordinária, quase inacreditável. - Isto tem de acabar. - O sofrimento deste homem comove-me, porque seria remediável. - Isto é que é arte! Nada ali é evidente. - Rio de quem chora e choro com os que riem."
Em Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro, o tempo, o espaço e as personagens são trabalhadas de modo a que a distanciação se concretize, recorrendo, muitas vezes, a um historiar dos acontecimentos representados e ao acentuar da precisão do lugar cénico. Ao dramaturgo, interessa-lhe que o ator se revele lúcido e, sobretudo, que o espectador se confronte e se esclareça, partindo da identificação inicial de dois tempos e dois mundos diferentes.
Felizmente Há Luar! destaca a preocupação com o homem e o seu destino; realça a luta contra a miséria e a alienação; denuncia a ausência de moral; alerta para a necessidade de uma superação com o surgimento de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização do Homem. São estes os objetivos de Sttau Monteiro, que evoca situações e personagens do passado usando-as como pretexto para falar do presente. Escrita em 1961, surge como máscara para que se possa tirar exemplo nesse presente ditatorial. Mas mais do que fazer a ligação entre dois momentos - o início do século XIX e o século XX - a sua intemporalidade remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição.
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