Tempo de Orpheu
Reúne Elogio da Paisagem, As Treze Baladas das Mãos Frias, Mais Alto e Ânfora. O título da coletânea, Tempo de Orpheu, coloca a poesia aqui reunida sob o signo de uma modernidade que teve em Orpheu o seu momento de afirmação e que na expressão poética de Alfredo Guisado confina com alguns dos seus ismos, nomeadamente com o paulismo, no que essa corrente criada por Fernando Pessoa possui de síntese de tendências decadentistas e simbolistas.
A poesia de Tempo de Orpheu é marcada por recorrências como o permanente cruzamento do sensível com o inteligível, a preferência pelos cenários e léxico medieval, exótico, satânico e aristocrático; o uso significativo do significante no que possui de musicalidade quase encantatória, obtida por recurso a aliterações, assonâncias, produção de ecos no interior do poema, quiasmos, repetições; a intelectualização de sensações; o misticismo sebástico consubstanciado em Mais Alto; a originalidade da metaforização; as regências anómalas através das quais se exprime o estilhaçamento do eu.
Essa joalharia verbal, quase barroquizante, leva Urbano Tavares Rodrigues a afirmar que "na poesia pampsiquista de Alfredo Guisado, tão depressa expectante como alucinatória, o fundamental é esse ato de irrealizar-se, em que o pormenor e a construção são infinitamente mais importantes, mais reveladores do que aquilo que aparentemente se diz." (RODRIGUES, Urbano Tavares, prefácio a Tempo de Orpheu, Lisboa, 1970, p. 14), vendo, na encenação dramática dos poemas, um cunho histriónico, onde "o que importa são apenas as imagens refratadas, o que através da ousadia metafórica ou das regências anómalas [...] nos transmite a intercomunicação secreta das coisas: o poeta assistindo aos fenómenos do seu existir e lançando-se aos pedaços a espelhos mágicos com áurea moldura, que parecem sumptuários e afinal abrem as suas portas para outro universo." (id. ib.)
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