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Luísa Ducla Soares

Para a Infopédia

Eu gosto da fantasia, da imaginação, da irreverência, do nonsense, e é essa parte de mim que geralmente sobressai ao escrever para crianças. Mas há outra parte, que talvez poucos conheçam, sempre ávida de saber coisas novas, de pesquisar e que não consegue viver sem uma catrefada de obras de referência: enciclopédias várias, dicionários portugueses e estrangeiros, de sinónimos, de antónimos, etimológicos, etc. e tal. Não são poucos os que tenho da Porto Editora.

Mas vou-lhes contar uma história da minha vida.

Quando era pequena, andava em escolas sem bibliotecas, vivia num bairro sem bibliotecas nem livrarias e, esgotados os poucos livros que me davam, deitei mão àqueles que, fechados à chave num armário, me estavam vedados. Li Eça de Queirós e outros autores às escondidas, de noite, debaixo dos lençóis.

E de dia? O meu pai tinha comprado, à medida que se publicava, a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. E eu achei que, de repente, me tinha saído a sorte grande! Podia, à vontade, folhear o mundo. Descobri palavras desconhecidas. Conheci terras longínquas sem fazer viagens. Entrei na intimidade de reis e rainhas. Deslumbrei-me com descobertas científicas. Nos volumes do A li tudo: sobre Afonso Henriques mais os Afonsos que se seguiram. Sobre alguidares, Alfama, aldrabice e algozes, Santo António e artrite, alpista, astronomia e Afeganistão. Eram milhares, as entradas! Cresci de repente, e tantas coisas díspares começaram a organizar-se na minha cabeça.

Depois trabalhei dezenas de anos na Biblioteca Nacional, onde, por força da função bem como da curiosidade, continuei a debruçar-me sobre múltiplas obras de referência.

Mas chegou a era da informática, e agora eis-me a consultar também a Infopédia, a ir lá com os meus netos, sem precisar de me levantar do sofá.

E como encaram as crianças as novas técnicas de informação?

 

A menina Leonor
só quer o computador.
(…)
É fiel, inteligente,
Não refila, nunca mente,
E quando ela se fartar,
Pimba, basta desligar.

 

Excerto do poema “O computador”, A cavalo no tempo, 2015, Porto Editora

Luísa Ducla Soares

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