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As palavras gastam-se?
Certamente já ouviram dizer – ou sentiram – que certas palavras, se forem muito usadas, acabam por ficar “gastas”, esvaziadas de sentido, sobretudo quando aplicadas de forma leviana, a despropósito. Creio que é, precisamente, para evitar que se tornem fúteis pelo uso excessivo e aleatório que tendemos a usar com parcimónia as palavras que consideramos mais preciosas, por representarem conceitos que valorizamos, como, por exemplo, o verbo amar.
A banalização do verbo amar – tanto ou mais do que a do substantivo amor – desagrada-nos, precisamente, porque se trata de um sentimento que não se nutre por quaisquer pessoas, apenas por aquelas que nos cativam de forma incondicional, que nos fazem sentir vontade de nos sacrificarmos por elas, de pormos a sua felicidade acima da nossa. E resistimos muito mais a empregar esse verbo em situações corriqueiras do que os falantes de inglês, por exemplo, que facilmente “amam” a vizinha, o dentista, um colega de trabalho, a professora do filho e coisas banais como um hambúrguer ou uma peça de roupa.
Nós, portugueses, não “amamos” isto, aquilo e aqueloutro. Quando muito, adoramos certas coisas, situações, ambientes, pessoas (e isso já constitui um exagero na maior parte dos casos, admitamos). Salvaguardamos criteriosamente a expressão amo-te para o momento em que a possamos dizer a alguém verdadeiramente especial. Deste modo, garantimos que, quando esse momento chega, a pessoa em causa não irá concluir que gostamos tanto dela como de um balde de pipocas ou de uma camisola macia: perceberá, de imediato, que o que sentimos é algo profundo e poderoso, capaz de nos fazer atingir os píncaros da felicidade, embora também do sofrimento, por sua causa.
Ao refletir sobre isto, fui levada a concluir que talvez tivesse feito um uso abusivo, porventura banalizador, dessas palavras no meu romance Amar em caso de emergência. E, com tal ideia em mente, cheguei a sentir receio de ir verificar quantas vezes as tinha utilizado, pensando que um número exagerado de ocorrências não abonaria em favor do livro, não só porque a repetição de palavras é um sinal de pobreza lexical, mas também porque – lá está – pode esvaziar de sentido aquelas que gostaríamos de manter significativas.
Devo dizer que me surpreendeu a descoberta de que, ao longo de 300 páginas, a palavra amor ocorre 105 vezes, enquanto o verbo amar tem apenas 17 ocorrências e a expressão amo-te aparece umas meras seis vezes. O número 105 pode parecer exagerado, mesmo tendo em conta que se trata de um romance quase com 82 000 palavras cuja temática é, precisamente, a busca do amor. Porém, se eu tivesse tentado empregar sinónimos para não repetir esse termo tantas vezes, quais poderia ter escolhido? Afeto? É muito pouco, para a intensidade que pretendia transmitir. Afeição? Idem. Devoção? Não é bem o mesmo sentimento, tem uma certa conotação religiosa.
Entre o excesso de uso e a sua substituição por vocábulos que não expressam exatamente a mesma ideia, pareceu-me preferível o excesso de uso. Então, ocorreu-me este pensamento: o excesso, em si mesmo, tem relevância. Afinal, a protagonista, Diana, é uma mulher muito reflexiva e obcecada com a ideia de conseguir perceber o que é o amor, vivendo-o em pleno – ou pelo menos tentando senti-lo, ainda que fugazmente. Logo, a utilização constante que ela própria faz da palavra, no seu diário, tem razão de ser: ilustra a sua obsessão. No domínio da ficção literária, a verdade é que as regras convencionais de utilização da língua são muitas vezes postas de parte para que observemos a realidade sob um ponto de vista diferente, mais acutilante.
Nesse sentido, a repetição de palavras assume um certo “valor”, e o próprio risco de as esvaziar de sentido pode constituir, em si mesmo, um sentido. A insistência num termo põe-no em evidência de tal forma, que os leitores se veem obrigados a pensar: Que efeito é que isto tem? Por que razão o autor escolheu empregar tantas vezes esta(s) palavra(s) em particular? E essa reflexão costuma ser importante para chegar ao entendimento do significado da obra, a um nível interpretativo mais profundo.
No romance Amar em caso de emergência, o amor é tão procurado, tão desejado, que cada vez parece ficar mais longe – tal como a miragem de um lago no horizonte de um deserto: é inútil que a pessoa sedenta diga repetidamente a palavra “água”, nessas circunstâncias. Ora, no deserto sentimental em que a protagonista se encontra, a repetição da palavra amor enfatiza essa inutilidade, esse absurdo. Assim, resta-me esperar que os leitores concordem comigo e que não considerem que as suas 105 utilizações acabam por desvirtuar o termo!
Vera dos Reis Valente
