Mande Deus que se cumpra isto!
Conta a lenda que, estando o conde D. Henrique às portas da morte, em Astorga, durante o cerco que fazia à cidade de Leão, mandou chamar o filho, D. Afonso Henriques, para lhe transmitir as últimas recomendações.
Exortou-o a nunca perder as terras conquistadas, a ser valente, a respeitar os conselheiros e os súbditos e, por fim, o mais importante de tudo, a ser justo para ter sempre Deus e o povo do seu lado. Pediu ainda que fosse sepultado em Braga e que o filho acompanhasse o cortejo fúnebre só até às portas da cidade, regressando rapidamente para consolidar a conquista de Leão.
Assim fez D. Afonso Henriques mas, pouco depois da sua partida, os vassalos de Astorga quebraram a promessa de fidelidade e tomaram-lhe as terras de Leão. Entretanto, Afonso VII, rei de Leão, retirou a confiança a Afonso Henriques, que lhe devia vassalagem, e desafiou-o.
D. Afonso Henriques, que pensava refugiar-se em Portucale (Porto) para, a partir dali, organizar a sua ofensiva, foi surpreendido pela oposição da mãe, D. Teresa, que entretanto casara com um dos homens mais importantes da Galiza, D. Fernão Peres Trava.
Todavia, D. Afonso Henriques organizou-se e travou com ela uma guerra devastadora que terminou com a prisão de D. Teresa. Atada com grilhões, amaldiçoou o filho desejando que as suas pernas fossem quebradas por ferros, e terminou a maldição com as palavras "Mande Deus que se cumpra isto!".
Em seguida, D. Teresa enviou um escudeiro ao soberano castelhano, D. Afonso VII, para que este interviesse; em troca, prometeu-lhe as suas terras. Mas a justa de armas, que teve lugar em Valdevez, foi favorável aos Portugueses.
Continuou D. Afonso Henriques a aumentar os seus domínios, conquistando cada vez mais terras aos mouros e levando sempre consigo a mãe presa. Este facto chegou aos ouvidos do Papa que, através do bispo de Coimbra, ameaçou excomungá-lo, caso não libertasse a progenitora. D. Afonso Henriques não acedeu à ordem e foi excomungado.
O bispo fugiu e, para o seu lugar, D. Afonso Henriques nomeou um bispo negro. Quando o Papa teve conhecimento da situação e julgando-o herege, enviou um cardeal para que lhe ensinasse Fé. D. Afonso Henriques informou o mensageiro que tinha em Portugal livros de Fé tão bons como os de Roma.
Mas o cardeal revalidou a excomunhão de Afonso Henriques e do reino. Este então perseguiu-o e poupou-lhe a vida na condição dele obter uma carta do papa que retirasse a excomunhão a Portugal e reconhecesse a sua independência, o que veio a verificar-se.
Os anos passaram, até que a maldição de D. Teresa se concretizou: ao sair apressadamente para mais uma batalha, o monarca bateu com a perna num ferrolho e partiu-a, caindo do cavalo. Tal acontecimento passou-se durante a conquista de Badajoz aos mouros, terreno de influência dos leoneses.
Um castelhano avisou D. Fernando de Castela do sucedido e disse-lhe também que havia poucos homens no castelo. O rei castelhano obrigou então D. Afonso Henriques a dar-lhe todos os castelos da Galiza e a jurar juntar-se-lhe em terras de Espanha logo que pudesse cavalgar.
O rei português voltou a Coimbra para se curar, mas nunca mais voltou a montar a cavalo, para não ter que cumprir a sua promessa, passando, por isso, a andar numa carreta.
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