Banca e Indústria (1800-1914)

Uma das mais importantes inovações do século XIX foi a criação da grande empresa, fosse ela nacional ou multinacional. Esta revolucionária organização industrial trouxe a concentração das forças produtivas e do poder económico, o que gerou nos Estados Unidos da América uma reação da opinião pública, ao mesmo tempo que impulsionou políticas protecionistas por parte do Estado. A introdução da maquinofatura, isto é, a produção fabril mecanizada, significou a concentração da produção e a pouco e pouco arrastou consigo a produção fabril ou factory system, que veio em parte substituir a produção de tipo doméstico, o domestic system, com a introdução da fábrica.
Estas inovações, no entanto, não acabaram com a produção em moldes tradicionais, que se manteve, e muitas vezes completou a produção fabril, ao efetuar tarefas não mecanizadas. Por exemplo, o desenvolvimento da máquina de coser por Singer, no final do século XIX, representou uma nova fase da produção têxtil doméstica, que ainda nos nossos dias se mantém nas grandes regiões de produção têxtil.
Os progressos tecnológicos e científicos facultaram a concentração produtiva, também gerada pela acumulação de capitais e pelo avanço das instituições financeiras. O chefe de uma fábrica, ou empresário, num mesmo local reunia, por vezes, centenas de operários, que se ocupavam de tarefas mecanizadas e racionalizadas que não implicavam uma especialização do trabalhador no desempenho das suas funções e que lhe permitiam conter as despesas e aumentar o volume da produção. Esta tendência de concentração da produção possibilitou também a criação de grandes empresas, e até aos finais de Oitocentos, as principais indústrias beneficiadas por este surto de desenvolvimento eram as indústrias de equipamentos e as produtoras de bens intermediários. Os bons resultados apresentados pelas grandes empresas, nos campos da investigação, da produção e da comercialização dos produtos, levaram à adoção desta estratégia de concentração por outros setores tais como a produção de bens de consumo. No fim do século XIX, as mais imponentes concentrações verificavam-se na siderurgia, nas indústrias de fiação, nos produtos químicos e na eletricidade.
As empresas de maior porte começaram a ganhar uma substancial vantagem sobre as pequenas empresas, pois as primeiras cresciam através da acumulação de capitais, o desenvolvimento técnico e científico e a progressiva diversidade de atividades. Apesar destes factos a pequena empresa ou oficina subsistiu em muitos setores produtivos, mas houve uma profunda alteração das relações de produção com a introdução destes inovadores métodos produtivos. O relacionamento estabelecido entre o patrão e o operário, numa unidade fabril, é apenas uma relação contratual comercial e não de outro tipo; o operário é remunerado pelo desempenho de um trabalho sujeito a uma disciplina e ritmado pela máquina. Nesta nova realidade da indústria mecanizada não havia lugar para a qualificação professional; cada funcionário era chamado a cumprir um trabalho, dividido racionalmente com funções especializadas, propício ao surgimento de rivalidades entre os trabalhadores.
O gigantismo da indústria e as novas formas de organização da produção fabril vão ser profundamente influenciados pelo desenvolvimento da banca. No século XIX houve um grande desenvolvimento do sistema bancário e uma maior facilidade no acesso ao crédito. Se até meados do século XIX os capitais eram investidos em bens de consumo, terras e nas despesas públicas, agora, setores como a rede ferroviária atraíam muitos investidores interessados em rentabilizar o seu dinheiro.
Com o surto das sociedades industriais e comerciais, deu-se um desenvolvimento do sistema bancário e da bolsa, embora muitas destas instituições se autofinanciassem. Bem perto da Primeira Grande Guerra a percentagem representada pelo autofinanciamento era de 3/4 do investimento industrial total. A maior dependência das indústrias em relação a financiamentos externos acontecia nas sociedades anónimas, mas também os Estados recorriam ao financiamento bancário, o que beneficiou a prosperidade dos bancos ao longo do século XIX. Os bancos foram aumentando de número e criaram uma nova regulamentação relativamente às sociedades anónimas por ações; habilmente, atraíram a pequena poupança e facultaram o financiamento de grandes empresas através dos bancos de depósitos e dos bancos de investimento.
Neste século, operou-se uma revolução no sistema bancário. Os centros financeiros pioneiros, Londres, Amesterdão, Paris e Frankfurt, onde surgiram os primeiros bancos particulares, mostraram-se inábeis em acompanhar as mudanças, o que conduziu muitos deles à bancarrota. No entanto, alguns grandes empresários dessas praças financeiras mantiveram-se ativos e prósperos, como os Rothschild de Frankfurt, os Mallet e os Fould de Paris, e os Baring, os Peabody-Morgan e os Lazard de Londres.
Noutros casos, bancos de tipo familiar uniram-se dando origem a fortes instituições bancárias, que impiedosamente eliminaram a concorrência de independentes, menos dimensionados.
O Banco de Inglaterra torna-se um caso excecional, dada a sua influência decisiva na formação da banca moderna. Este era simultaneamente um banco de depósitos, de crédito e um banco emissor. Mas, mais do que isso, era igualmente uma entidade oficial e um árbitro da política de créditos.
Este banco, pela legislação britânica de 1847, deveria manter reservas de ouro, títulos públicos e outros valores para poder controlar 2/3 da circulação monetária da Inglaterra.
Na Europa houve países que seguiram este exemplo. Todavia, as medidas tomadas tendiam a ser menos rígidas, uma vez que na maior parte destes casos a banca podia emitir e manter com cobertura as suas notas, reservas metálicas e papel comercial. Da entrada de papel comercial nos bancos dependia a emissão de notas. Era um sistema assente nos mecanismos autorreguladores, criado por Thorton Tooke na Inglaterra.
Com o aumento da intervenção do Estado no sistema bancário, o poder político passou a ter uma grande influência nas instituições de depósito e crédito.
O acentuado crescimento económico do século XIX, desencadeou uma evolução do sistema bancário e das formas de pagamento. Surgiram e expandiram-se então a moeda fiduciária (a nota) e a moeda escritural (cheque, título, letra de câmbio).
A introdução da emissão de notas data de 1656 e deve-se a um banqueiro sueco de nome Palmstruch. A sua aplicação foi seguida por outros bancos, mas só se veio a intensificar em meados do século XIX. A moeda escritural, sobretudo representada pelo cheque, teve uma divulgação bastante mais lenta do que a da moeda fiduciária até à Primeira Guerra Mundial. Contudo, teve circulação expressiva nos meios financeiros a partir dos finais do século XIX.
Em meados deste século a maioria das empresas dos países mais industrializados eram estruturadas segundo o modelo das empresas por ações, que de início tinham um número reduzido de sócios como as empresas por comandita de ações. Os investimentos de maior envergadura exigiram a criação de empresas constituídas como sociedades anónimas, representadas por uma pessoa moral. Estas são entidades jurídicas com uma sede social, cujo capital encontra-se dividido em ações de pequeno valor, nas quais os titulares fazem parte da assembleia geral que escolhe o conselho administrativo.
Estas sociedades tinham a possibilidade de aumentar o capital pela emissão de novas ações ou de obrigações. Deste modo, permitiram a reunião de avultados capitais e assim o crescimento do capitalismo financeiro.
Nesta época as grandes empresas tendem para uma concentração industrial, com o objetivo de produzir em enormes quantidades e especializar-se na fabricação de determinados artigos por forma a controlarem os salários e o preço dos produtos. Na concentração industrial há que distinguir dois tipos: a concentração vertical e a concentração horizontal. A primeira forma congrega numa empresa as fases de produção para deste modo aumentar o lucro das empresas abrangidas e rejeitar a prestação de serviços de outras empresas. Inicialmente, não tinha um carácter monopolista, mas com o tempo a concentração evoluiu nesse sentido. O segundo tipo de concentração industrial, a concentração horizontal, diz respeito às últimas fases de produção. Os produtores associam-se para que haja uma redução ou até eliminação da concorrência. Este é um tipo de concentração que pode acontecer a curto, a médio e a longo prazo. Para a concentração a médio prazo a forma mais comum são os cartéis de preços e de divisão de produção ou de mercado que nos países anglo-saxónicos toma a designação de pool, na França de comptoir e na Alemanha de kartell.
O trust, concentração de empresas com uma orientação económica comum, representa um tipo de concentração mais forte do que o cartel, pois há um controlo de todo o processo de transformação do produto desde a matéria-prima até ao produto final. Os trusts surgiram nas companhias petrolíferas e acabaram por se propagar às indústrias químicas, à siderurgia e ao comércio.
As holdings, isto é, as associações financeiras que através das ações controlam as empresas, apareceram devido às dificuldades colocadas aos trusts por legislação governamental impeditiva da sua formação.
Este desenvolvimento das estruturas empresariais e dos sistemas bancários e da banca pressupôs também uma necessidade de tornar mais rentável a mão de obra, facto que impulsionou o desenvolvimento de teorias sobre a racionalização do trabalho e a gestão científica das empresas e reformulou as teorias de Adam Smith acerca da divisão do trabalho.
Os métodos da racionalização do trabalho foram estudados por Frederick Taylor, que os definiu em 1911, a partir do progresso dos estudos da psicologia aplicada. O taylorismo, como se veio a designar esta teoria, foi aplicado por Henry Ford na indústria automóvel, onde pôs em prática a estandardização, o trabalho em cadeia e a automatização, que resultaram na produção em massa que subsequentemente originou o consumo também massificador.
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