Comerciantes e Navegadores Fenícios

Fenícia é o nome que os Gregos deram, no primeiro milénio a. C., à franja costeira do atual Líbano e Norte de Israel, desde a região de Trípoli, no norte, até Akko (Acre) no sul, embora, ocasionalmente, este termo se utilize de igual modo para designar toda a costa da Síria e da Palestina.
Comprimidos por todas as direções por povos novos, Frígios provenientes do Norte e Semitas do Ocidente, os reinos assírio e babilónico passaram por momentos difíceis de retração e luta pela sobrevivência. O período áureo do seu poder está praticamente terminado, de uma forma provisória, e este espaço de tempo, aproximadamente desde o século XII até ao VIII a. C., permitiu a ascensão progressiva e a instalação de outros povos, bem como o florescimento material dos Fenícios e do estado de Israel.
Os Fenícios são um povo de origem semítica, provenientes de destino incerto, algures na região compreendida entre o Mar Morto e o mar Vermelho, instalado na costa mediterrânica já no III milénio a. C., bem antes das grandes transformações surgidas no século XII a. C. Os portos fenícios de Biblos e Ugarit mantinham relações com o Egito e as escavações arqueológicas em Ugarit revelaram uma documentação significativa sobre a Fenícia dos séculos XV-XII, nomeadamente sobre os palácios reais, a administração, os mitos e pensamento religioso. Mas o desenvolvimento fenício, contrariado, aliás, pelas condicionantes naturais pouco vantajosas - ausência de território interior, perto do Líbano - pelo seu pequeno número e debilidade militar, e acima de tudo pela progressiva diminuição dos grandes impérios vizinhos, sobretudo dos Cassitas, Mitani, Egito e Hititas, apenas pode ter lugar entre os séculos XI e VIII a. C.
Aproveitando um momento geral de alguma confusão, os Fenícios ocupam, de uma forma mais sólida, a zona da costa desde Arad-Arvad, ao Norte, até ao Monte Carmelo, em Dor, tendo sido esta última faixa litoral reconquistada aos piratas Zacaras, que a tinham ocupado após as movimentações dos Povos do Mar. Circunscritos à área de costa, dispondo somente de planícies ínfimas (exceto Simira), mas paralelamente beneficiados pela madeira das florestas libanesas, pelo escoadouro das caravanas que chegavam à cidade de Damasco após a longa travessia do deserto e pela presença de múrice - que lhes possibilitou um monopólio da tintura púrpura -, assumiram a sua vocação eminentemente comercial, voltando-se, de forma deliberada, para o grande recurso marítimo. Mesmo nesta situação de "abertura", o momento geral foi-lhes favorável, pois entre a queda da talassocracia dos aqueus, imediatamente posterior à cretense, e o surto posterior do comércio grego no século VIII a. C., foram eles, durante três séculos - e reduzida a pirataria dos Cários -, os senhores da zona mediterrânica, de uma forma particular patente na própria Odisseia. Certamente as cidades jónicas, Mileto, Esmirna, Foceia, interditaram-lhes o Mar Egeu e o consequente acesso às zonas do Norte, restando-lhes como opção o Mediterrâneo Ocidental, apenas navegado até esse momento por cretenses e aqueus. Assinalando a sua rota com pequenas feitorias, em Chipre (Cítion, Amatunte), em Creta (cabo Itanos), descobriram com habilidade e uso exclusivo, a via das Colunas de Hércules, acrescentando novos entrepostos comerciais na Sicília e autênticas cidades coloniais no Norte de África e na Península Ibérica Meridional, no reino de Tartessos, de forte riqueza mineral. Após uma fase inicial assinalada pela criação de Utica, Lixos e Gades, concretizou-se, em finais do século IX a. C., a fundação de Cartago por fenícios de Tiro, tendo os cartagineses estabelecido entrepostos e, por vezes, colonos em Malta, na Sicília (Motié, Lilibeu) e na Península Ibérica. A presença etrusca, e paralelamente dos Foceanos de Messália, deveria, no entretanto, interditar-lhes a exploração do mar Tirreno e do Golfo de Lião.
A atividade comercial fenícia era muito variada. Além da exportação dos seus tecidos de lã purpurina, cabia-lhes a tarefa de abastecer o mundo mediterrânico em géneros exóticos provenientes do Oriente, sobretudo dos Egípcios, pelo mar Vermelho, e em produtos de primeira necessidade, vindos do grande Norte, caso do estanho (das ilhas de Scilly, na Cornualha). O enriquecimento fenício foi contrariado somente pela obrigação de pagar tributo aos Assírios a partir de meados do século IX a. C., e pelas rivalidades que se desenvolviam entre as suas principais cidades, sobretudo Tiro e Sídon, cada uma delas acabando por dominar a costa de norte a sul. Nunca tiveram um verdadeiro governo "nacional", apresentando cada cidade um rei, por vezes substituído ou neutralizado pelas aristocracias de mercadores. O soberano fenício mais conhecido é Hiran de Tiro, contemporâneo, aliado e amigo do rei Salomão.
A contribuição fenícia do ponto de vista civilizacional é ainda matéria de acesa discussão. Não foram, como os Sumérios ou os Gregos e os indo-europeus genericamente, um povo "criador", mas sim, como a maioria dos semitas, um povo "vulgarizador". A sua arte, o seu domínio material, a cerâmica, nada têm de original, refletindo sobretudo as tendências geometrizantes da época, não se tratando de produtos de luxo, mas sim elementos de uso corrente.
Uma das proezas navais dos Fenícios foi a primeira viagem conhecida de circum-navegação da África. O faraó egípcio Neco (609-593 a. C.), curioso de saber o que ficava para lá do mar Vermelho, mandou uma esquadra tripulada por Fenícios, capitaneada por Haman, os melhores marinheiros do seu tempo, descer todo o mar, com ordens para seguirem toda a costa africana. Foi uma viagem longa e perigosa, numa proeza que viria a ser repetida somente em 1498, com a passagem do cabo da Boa Esperança.
Do ponto de vista religioso, considerou-se durante bastante tempo a pouca originalidade e direta inspiração em modelos próximos dos vizinhos arameus. Mas as descobertas arqueológicas de Ras-Chamra (Ugarit), distribuídas pelo período compreendido entre os séculos XI e XII a. C., apresentaram elementos que obrigaram a uma reflexão e inversão desta posição. Paradoxalmente, a religião fenícia apenas conhecia deuses agrários e não marítimos, o que sugere uma origem continental. O seu deus principal é uma aproximação direta de Baal (senhor), muito semelhante ao Hadad dos Sírios, e com o nome de El, outro grande deus criador, reveste um carácter solar mais acentuado. Contudo, a principal originalidade reside no mito apresentado em textos do século XIII a. C., e que refere os nomes de Mot e Alein, deuses agrários das messes e dos frutos, um dos quais morre no inverno para ressuscitar na primavera, cumprindo a outra divindade o processo inverso. Posteriormente, esta mitologia é aplicada a outros deuses, como Adónis de Biblos ou mesmo Átis da Frígia. Divindades femininas choram e exaltam, com alguma violência, as graças de Mot e Alein, estando relacionadas, sob o nome de Astarté, com a deusa da fecundidade Ishtar babilónica e com Tanit, cartaginesa. Alguns rituais fenícios pareceram a seu tempo manifestações de horror trágico, como o sacrifício de crianças, sobretudo em Cartago, denominado Molcomor (de onde deriva o chamado Moloc). Por fim, surge a imagem do jovem deus masculino, o "rei" de Tiro, Melkart, adorado em Cartago e Gades, assimilado a Hércules pelos greco-romanos.
Mas os Fenícios são essencialmente os inventores, adaptadores e grande difusores do alfabeto. Já no século XV a. C., com um forte sentido prático e realista, tinham a noção de uma escrita de tipo alfabético, transcrevendo apenas as consoantes, compreendendo somente vinte a trinta signos. Os trabalhos de intervenção arqueológica realizados na sepultura de Ahiran, em Biblos, revelaram textos provenientes do século XIII (data provável), redigidos em sinais alfabéticos, suscetíveis de transcrever tanto o fenício como o aramaico, em vias de substituir o babilónico no mundo oriental. Os gregos recebem este alfabeto, acrescentando aos sinais consonânticos novos sinais destinados a transcrever as vogais.
A História Fenícia como povo independente, na zona do Levante, termina com a conquista de Tiro e do restante território em 332 a. C. por Alexandre, o Grande. Contudo, muito antes deste acontecimento, no século VIII a. C., os Fenícios tinham fundado uma cidade no Norte de África, Cartago, que viria a fundar um vasto império no Mediterrâneo Central e Ocidental, o que originaria o seu conflito com Roma.
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