El Niño

O que é o El Niño
O fenómeno El Niño corresponde a uma gigantesca massa oceânica aquecida que cobre uma vasta área do oceano Pacífico Central e Oriental. Esta enorme massa de água flutua, como um icebergue, porque a água quente é menos densa que a água fria envolvente (tanto no fundo como lateralmente) e, além disso, porque regista menor salinidade devido às fortes precipitações que sobre ela se abatem quase constantemente.
A causa da acumulação de água mais aquecida na região equatorial do Pacífico, entre a Austrália e a América do Sul, pode estar, segundo alguns cientistas, ligada a um enfraquecimento dos ventos alísios (que sopram de nordeste para sudoeste, no hemisfério norte, e de sudeste para noroeste, no hemisfério sul) e mesmo à inversão da sua direção, ao mesmo tempo que se verifica uma menor mistura com as águas de profundidade, mais frias. Como resultado da maior concentração de águas quentes nas regiões equatoriais, a atmosfera sofre um maior aquecimento, aumentando significativamente a evaporação. Simultaneamente, verificam-se alterações nas posições mais habituais dos centros de pressão, o que condiciona a intensidade e o ritmo das precipitações, com valores muito afastados do normal para a época, que tanto podem ser sinónimo de inundações ou de secas prolongadas.
A periodicidade do fenómeno El Niño constitui ainda hoje um mistério por desvendar por parte da comunidade científica. Segundo os registos dos últimos cem anos, é possível identificar 30 ocorrências, com intervalos entre 2 e 10 anos.
A intensidade do fenómeno El Niño é muito variável, tendo atingido as maiores proporções, desde que se efetuam registos meteorológicos, nos anos de 1982-83 e de 1997-98.
Quanto à sua duração, pode afirmar-se que o período de ação do El Niño se prolonga geralmente entre 9 e 20 meses, ao fim do qual surge um fenómeno de características opostas, La Niña.
La Niña constitui o inverso da situação do El Niño, ou seja, equivale a uma concentração de água mais fria que o normal na região equatorial do Pacífico Oriental, e os seus efeitos na máquina global do tempo são tão importantes como os do El Niño. A diminuição da temperatura superficial do mar está associada a um aumento da intensidade dos ventos alísios.
No que respeita ao El Niño de 1997-98, os seus efeitos foram mais intensos nas áreas equatoriais do Pacífico, embora tenham atingido praticamente todo o Planeta. Nesta altura, já é possível elaborar uma longa lista de catástrofes provocadas por perturbações atmosféricas associadas ao El Niño e que semearam a destruição e mesmo a morte em todos os continentes.

América
Em agosto, tempestades no Sul do Brasil provocaram as piores inundações dos últimos 30 anos. Registaram-se 15 mortos e mais de 10 000 pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas. Em outubro, 20 000 pessoas ficaram desalojadas com cheias em diversos rios. Ondas de calor em pleno inverno do hemisfério sul bateram todos os recordes para esta época do ano, atingindo o máximo de 42,7oC. Em fevereiro, registaram-se grandes inundações no Rio de Janeiro e noutras cidades do litoral sudeste.
No Equador, chuvas fortes e desmoronamentos de terrenos destruíram as culturas. A atividade pesqueira ficou seriamente abalada, com o desaparecimento dos stocks e a destruição de barcos nas tempestades.
Na Colômbia, as colheitas de café ficram em risco e os preços começaram a subir nas bolsas de Londres e de Nova Iorque, o que beneficiou outros países cuja produção não foi afetada (p. ex., o Brasil). A economia local colombiana foi também afetada pela menor produção de folhas de coca, base para a cocaína, que constitui uma das principais fontes de receita do país.
No México, o furacão Pauline, com ventos de 200 km/h e chuvas de 200 mm em 24 horas, devastou a costa do Pacífico, matando mais de 400 pessoas, sobretudo na cidade turística de Acapulco. Registaram-se 7 deslizamentos de terrenos com estragos enormes. Ondas com mais de 10 m destruíram pequenos barcos de pesca. As autoridades referem que esta foi a tempestade mais violenta desde 1959 e associam-na com o aquecimento das águas do Pacífico provocado por El Niño.
No Panamá, a navegação no canal do Panamá está em dificuldades não só pela falta de água potável para abastecer os navios, como também pelos baixos níveis de água em certos troços do canal.
No Peru, grandes tempestades de neve (classificadas como tempestades do século) destruíram milhares de passagens nos Andes Peruanos, em setembro de 1997. Cheias, deslizamentos e avalanches. A atividade pesqueira ficou arrasada. Em fevereiro/março de 1998, registaram-se fortes inundações no Peru.
Nos Estados Unidos da América registaram-se máximos de precipitação em várias regiões, ao mesmo tempo que o inverno se mostrou particularmente suave em áreas de clima mais rigoroso. Cheias catastróficas na Califórnia. Nos estados do Arizona e de Nevada, o furacão Nora, o primeiro furacão proveniente do Pacífico nas últimas décadas, originou tanta precipitação no deserto, como a que se regista durante um ano. No Alasca, a fusão do permafrost (solo permanentemente congelado e em profundidade) provocou danos em estradas, vias férreas, aeroportos e alicerces de edifícios. Houve situações semelhantes nas regiões árticas do Canadá e da Sibéria.

Ásia e Oceânia
Em Hong Kong, sete dos 10 anos mais húmidos registaram-se em anos de El Niño. 1997 não foi exceção. Em setembro, registou-se o segundo mais baixo valor de insolação desde 1884.
Na Indonésia a pior seca em 50 anos atingiu o país. Centenas de fogos florestais - muitos dos quais ateados por empresas madeireiras sem escrúpulos - arderam descontroladamente durante o segundo semestre de 1997, criando uma nuvem de fumo que sufocou toda a região. A nuvem fez disparar os níveis de poluição do ar por toda a Indonésia, Brunei, Filipinas e Tailândia. A queda de um avião e a colisão de dois navios foram atribuídas à nuvem de fumo. Nas ruas de Jacarta e de outras cidades da região, as pessoas usaram máscaras de gás ou, no mínimo, lenços humedecidos para as suas bocas.
Em Israel, os investigadores analisaram duas décadas de precipitação e concluíram que há uma forte ligação entre precipitações mais elevadas e condições de El Niño.
Em Myanmar (antiga Birmânia) registaram-se as piores inundações das últimas três décadas, sendo esperados acréscimos nas taxas de mortalidade e de epidemias devido sobretudo à cólera. Relatos não confirmados do número de pessoas afetadas pelas cheias falam de 1 a 2 milhões, com cerca de 500 0000 desalojados.
Nas Ilhas Marianas Setentrionais, em outubro, o tufão Joan, com ventos de 300 km/h e rajadas de 370 km/h, foi um dos três mais violentos tufões já registados no Pacífico Ocidental.
Na Papua-Nova Guiné, mais de um milhão de pessoas está ameaçada pela fome. A falta de água nos rios torna impossível o transporte dos minérios de ouro e de cobre, ameaçando a rutura económica do país. A seca é crítica numa área muito mais vasta do que se supunha inicialmente; em muitas províncias, os serviços de saúde estão sobrelotados e o tifo, a malária e a cólera atingem proporções epidémicas. As chuvas da monção começaram tarde e foram escassas para minorar a seca.
No Sudeste Asiático um complexo anormal de tempestades subtropicais afetou a província chinesa de Guangdong, no início de setembro, provocando chuvas torrenciais, queda de granizo e tornados mortais. Resultaram torrentes de lama que arrasaram aldeias inteiras e mais de 360 000 pessoas foram obrigadas a deixar os lares devido à ameaça da subida das águas. Morreram pelo menos 107 pessoas. As autoridades referem que foi a pior tempestade e a mais forte precipitação dos últimos 500 anos.
No Taiwan, o tufão Winnie, o mais violento das últimas décadas, matou 43 pessoas.

África
No Quénia e na Somália, chuvas fortes e prolongadas provocaram enormes inundações. Milhares de desalojados, culturas perdidas, ameaça de epidemias.
Na África Austral houve seca, epidemias e fome.

Europa
Em Portugal e Espanha inundações catastróficas provocadas por uma anormal concentração de precipitação afetaram o Alentejo e a Extremadura espanhola, provocando 11 mortos em Portugal e 26 na Espanha. Em Monchique, registaram-se cerca de 300 mm de precipitação num só dia, ou seja, cerca de 1/3 da precipitação média anual para aquela localidade, o que causou enormes prejuízos materiais.
Na Polónia e na Alemanha as inundações do Óder atingiram níveis catastróficos e obrigaram à evacuação de milhares de pessoas.

Efeitos atribuídos a La Niña
O ano de 1998 ficou ainda marcado pelas graves inundações nas planícies dos principais rios chineses e pela devastação de diversos países da América Central, provocada pelo furacão Mitch. Alguns cientistas associam estes extremos climáticos à influência La Niña, por efeito das mudanças que a circulação atmosfera sofre, tanto em termos de intensidade dos fenómenos como pela mudança da sua posição mais habitual por parte dos centros de pressão.
Como referenciar: El Niño in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-01-20 23:54:26]. Disponível na Internet: