Na Senda da Descolonização (1885-1950)

Entre os finais do século XIX e o início do século XX, a Europa ainda exercia uma supremacia sobre os outros continentes (imperialismo). Os países mais poderosos do Velho Continente repartiam entre si o globo terrestre, em possessões coloniais e em áreas de influência política e económica.
Na primeira metade do século XIX, a Europa passou a ter dois novos concorrentes: os Estados Unidos da América e o Japão. No final desse século as velhas e as novas potências apoderam-se de novos territórios, que exploram segundo um modelo imperialista e capitalista. Com a Conferência de Berlim (1884-1885), começou um novo ciclo da história colonial. Catorze países chegaram a um acordo sobre a partilha do mundo. Das resoluções saídas desta conferência, a mais importante foi o artigo 35.º do 6.º capítulo das conclusões, que consagrou o princípio de ocupação efetiva, assunto que, no caso português, levou a um conflito com a Inglaterra (a célebre questão do mapa cor-de-rosa) pela posse dos territórios entre Angola e Moçambique.
Até 1939, as potências coloniais europeias pareciam bastante confiantes relativamente à solidez dos seus impérios, mas, a partir da Segunda Guerra Mundial, quase todos os territórios dominados pela Europa tornaram-se independentes. No pós-guerra, o processo de descolonização avançou definitivamente, devido, sobretudo, à crescente reivindicação de carácter nacionalista dos povos colonizados na Ásia e na África, que reclamavam o seu direito à autodeterminação, perante o enfraquecimento das potências europeias e ao apoio dos EUA e da URSS.
Nos territórios colonizados pelos Europeus surgiram movimentos nacionalistas liderados pela burguesia e elites locais emergentes, frequentemente arredadas de cargos relevantes, que assimilaram os ideais de liberdade e de democracia e o modelo de Estado-nação dos europeus. A base de apoio deste movimentos nacionalistas era composta não apenas pelas elites locais, mas também por camponeses descontentes e pelos aglomerados urbanos que viviam em condições pouco condignas.
A Segunda Guerra Mundial contribuiu para a afirmação destes movimentos, porque pôs a descoberto as fraquezas das potências europeias, cujo prestígio fora muito abalado pelas dificuldades militares que enfrentaram durante este conflito bélico. Essas dificuldades também se sentiram na Ásia, onde o Japão conseguiu, com alguma facilidade, conquistar muitas antigas possessões europeias.
Para além deste aspeto, há ainda a salientar a necessidade que os europeus tinham de recorrer ao apoio de países não-europeus e a apoios humanos e materiais dos territórios coloniais, o que despertou a consciência da sua devida importância.
Com o fim da guerra, a conjuntura mostrava-se muito favorável à descolonização, apoiada tanto pelas novas potências emergentes (EUA e URSS), que viam no enfraquecimento da Europa uma oportunidade de aumentar a sua rede de influências, como pela Organização das Nações Unidas (ONU). O povo norte-americano não esquecia que também tinha sido colonizado, enquanto os Soviéticos aproveitavam esta emancipação para combater o capitalismo.
Este processo pautou-se, no entanto, por um conjunto muito variado de modelos, onde, quase sempre, esteve presente a violência e a guerra. Genericamente, podemos distinguir dois modelos de descolonização: o modelo de independência que não recorre à guerra, que ocorre nos casos em que a potência colonial aceita reconhecer a irreversibilidade deste processo e prepara a emancipação, como aconteceu com a França e a Inglaterra nalgumas colónias da África, e o modelo em que a luta pela independência é feita pela guerra, nos casos em que a potência colonial não reconhece a independência.
Na Ásia, em termos gerais, as regiões colonizadas alcançaram a independência mais cedo do que na África porque os movimentos nacionalistas eram mais antigos e mais sólidos, e a sua cultura estava mais arreigada. Nos territórios ocupados pelos Japoneses, na Segunda Guerra Mundial, os Norte-Americanos afirmaram-se como os libertadores, o que dificultou a reinstalação de potências europeias. Neste processo resgistaram-se alguns casos singulares. A China, um país dominado pelos Ocidentais e pelas novas conquistas japonesas durante a guerra, foi libertada em 1943, quando os Europeus renunciaram aos seus privilégios e concessões. As Filipinas tornaram-se independentes com o apoio norte-americano, em 1946, enquanto a Índia e o Paquistão se emanciparam em 1947. No período anterior à Segunda Guerra Mundial, o Partido do Congresso, de Gandhi, forçou a Inglaterra a fazer importantes cedências, mas, no decurso da guerra, o partido nacionalista voltou a reclamar a independência como condição para que a Índia apoiasse a luta contra as potências do Eixo. A Inglaterra, no entanto, não atendeu às exigências e reprimiu violentamente o movimento nacionalista.
A Indonésia, colonizada pelos Holandeses, foi declarada independente em 1949, graças às forças nacionalistas de Sukharno, que contaram com a ajuda dos Japoneses no momento da sua retirada, dos Norte-Americanos e da ONU. Na Indochina francesa, ocupada pelos Japoneses na guerra, a emancipação foi incentivada também pelos Japoneses. No Camboja, o Rei Shanouk tomou o poder, mas o nacionalista comunista Ho Chi Minh recusou-se apoiar o reino implantado, preferindo auxiliar na luta antifascista, o que, numa primeira fase, suscitou a simpatia norte-americana. O movimento nacionalista vietnamita (Vietminh) proclamou a República Popular do Vietname. A França não se conformou com a perda das colónias, mas, perante a pressão internacional, acabou por aceitar o inevitável. Tornavam-se assim independentes o Laos, o Camboja e o Vietname dividido entre Vietname do Norte, de influência comunista, e do Sul. Em 1975, após uma longa e sangrenta guerra, envolvendo os EUA agora do lado da fação real, o Sul foi conquistado pelo Norte.
No Próximo Oriente, uma área muito influenciada pela Inglaterra, em especial o Médio Oriente, a emancipação foi favorecida pela independência do Líbano e da Síria, ex-colónias francesas, e da Líbia, ex-colónia da Itália (1951). Na Palestina, os Britânicos não conseguiram resolver os conflitos entre Palestinianos árabes e Judeus, que ainda hoje se mantém. Em 1948, nascia o Estado Judaico de Israel, o que agravou as rivalidades entre os Árabes palestinianos e os Estados vizinhos.
Todos estes acontecimentos contribuíram para que a Inglaterra perdesse as posições no Egito, no Chipre, em Ádem e no Iémen do Sul. Só Gibraltar se manteve sob o domínio inglês.
No Norte de África, a França concedeu a independência, em 1956, de forma quase pacífica, aos protetorados de Marrocos e da Tunísia; mas na Argélia, onde havia uma importante colónia branca, houve um conflito armado que só terminou em 1962.
Na África Ocidental, britânica e francesa, as autonomias foram concedidas sem praticamente se recorrer ao conflito armado. Mas na África Central e Oriental a luta pela independência foi mais complexa. Basta pensarmos nos casos do Quénia, de Madagáscar e do Zaire, ex-Congo Belga, onde o processo foi dificultado pela presença de comunidades brancas muito enraizadas e pelos fortes interesses económicos.
Na África Austral, a Rodésia do Sul (Zimbabwe) declarou unilateralmente a sua emancipação, reconhecida nos anos 80, pela Inglaterra. As colónias portuguesas só atingiram a liberdade após a Revolução de 25 de abril de 1974, e após uma longa guerra colonial. Angola e Moçambique foram os casos mais dramáticos, onde ocorreu a fuga maciça da população branca e ainda persiste a guerra, mesmo depois da independência.
Na República da África do Sul, a minoria branca (1/5 da população) impôs o controlo do poder político, através da instauração de uma política de segregação racial, o apartheid, desmantelado no final do século XX. A Namíbia, administrada pela República da África do Sul, apesar de teoricamente se tornar independente em 1966, só o foi verdadeiramente em 1989.
A descolonização permitiu a construção de novos Estados soberanos, contribuiu para afirmação das aspirações e interesses desses povos no plano internacional, apesar destes se debaterem com graves dificuldades económicas e políticas inerentes à fragilidade das suas economias, muito dependentes do exterior e ao clima de instabilidade provocado pelos incessantes golpes militares e pelo aparecimento de ditaduras.
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