As Moradas 1 & 2
Numa poesia definida como "negação determinada de certas evidências ou razões aparentemente plausíveis" (cf. LOPES, Óscar, Cifras do Tempo, Lisboa, 1990, p. 325), As Moradas 1 & 2 (completadas com as terceiras Moradas editadas em Poemas), consagrada como uma das obras principais de António Franco Alexandre, publicada em 1987, confirma uma escrita que joga com o aleatório construído sobre um dispositivo linguístico aparentemente ancorado no concreto e trabalhado prosodicamente pelo recurso a reiterações fónicas no interior do verso.
O título, evocando as moradas de S. Teresa parece revelar-se decetivo para o leitor que buscasse uma intertextualidade evidente com a literatura mística e desejasse decifrar de forma imediata as etapas de uma ascese. Porém, numa poesia que repugna a construção racionalmente fechada do discurso, os estádios de iniciação e iluminação não são ditos, são um dos sentidos possíveis entre outros para que o título remete. Aliás as palavras ditas não são, em As Moradas, as portadoras de sentido: importam "as palavras [que] existem no intervalo das palavras"; porque "de todas as palavras, só uma irá bater / à porta do desconhecido, / entrar no coração, dar as boas-vindas, / [...] ela lateja na núpcia do sangue, inteiramente ignorante / do grande sentido de tudo isto". Despistando sentidos, subentendendo outros sentidos, subestimando os sentidos mais evidentes, na poesia de António Franco Alexandre ecoa o reencontro com o sentido, afinal o natural, o da simplicidade das coisas, como sugere o único poema dotado de título de As Moradas: "por isso os selvagens, que não têm mais / que o necessário, / conversam em figuras. / esta dependência imediata da linguagem/ esta radical correspondência das coisas visíveis / nunca perde o poder de afetar-nos. // devemos ir sós, vivos e sós. I must / be myself. / tudo quanto Adão teve, o céu a terra sua casa, / tudo podes e tens. / keep thy state; come not into their confusion. / constrói, sim, o teu reino, o teu mundo: natureza." («emersoniana»).
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