João Maimona
Poeta, ensaísta e crítico literário, João Maimona nasceu a 8 de outubro de 1955, em Kibokolona, Maquela do Zombo, na província do Uíge, Angola.
Depois de algum contacto académico com a área de Humanidades Científicas, na República Democrática do Congo - Kinshasa, regressa a Angola e, no Huambo, licenciou-se em Medicina Veterinária.
Mais tarde, diplomou-se na área de Virologia Médica e Epidemologia Animal, pelo Instituto Pasteur de Paris e pela École Nationale Véterinaire d'Alfort, em França.
Quadro do Ministério da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, foi Diretor Nacional do Instituto de Investigação Veterinária (I.I.V.), de 1991 a 1993.
Académico cientificamente reconhecido, foi convidado como assistente para a Universidade Agostinho Neto.
Quando radicado no Huambo, ajudou a fundar a Brigada Jovem de Literatura, em 1981, que foi responsável pela edição de três números da publicação Aspiração.
Intitulado por alguns como a fase da Renovação, este movimento da Brigada procurava reunir os jovens em torno da atividade literária, uma vez que a Universidade não conseguia responder, nesta época, a estas solicitações.
Tendo criado este movimento literário, que teve, aliás, uma forte dimensão quantitativa, seis anos após a Independência de Angola, os jovens "brigadistas" enveredaram, numa primeira fase, por um discurso literário nitidamente alinhado, de exaltação dos novos valores da independência, absorvendo os ideais do realismo socialista. Marcado por uma forte emotividade, nem sempre este discurso se constituía por parâmetros de literariedade.
Escapando a esta banalidade discursiva, Maimona cedo encontra o seu caminho, sendo apresentado na antologia de Luís Kandjimbo e Lopito Feijoó Geração da revolução, novos poetas angolanos em volta, ao lado de E. Bonavena, Lopito Feijoó, Rui Augusto, Paula Tavares e José Luís Mendonça, como um poeta de futuro promissor.
Fazendo a sua estreia literária com cerca de 30 anos, o autor é detentor de uma obra que, como a de muitos outros poetas seus contemporâneos, é fruto de uma sociedade civil e militar ainda profundamente marcada pela guerra, mergulhada nos valores da emulação decorrente da proximidade da independência.
Integrando a plêiade de novos escritores, João Maimona reflete já uma manifesta performance no que concerne ao uso e "manejo" dos signos e da palavra, com uma linguagem cujas repetições e retornos permanentes se enformam como uma teia que nos conduz, com efeito de "boomerang", sempre ao ponto de partida. Retomando o simbolismo a que imprime um grande sentido poético, o autor envolve-nos através de um clima de melancolia predominantemente contemplativa e reflexiva.
Na verdade, caracterizada por um discurso perpassado por uma postura de reflexão sobre a decadência, a degradação e o desencanto, a sua poesia, assente em processos repetitivos, tem como centro nuclear semântico a morte.
Pertencendo a uma geração a que alguns estudiosos definiram como "geração das incertezas", a sua temática reflete uma angustiante desilusão quanto ao futuro do seu país, marcado pela fome, pela miséria, pela repressão e pela guerra que se alastra, dia a dia, contrariando os sonhos revolucionários dos anos 60 e 70. Contudo, a par deste desencanto e desta dor, alguns elementos do cosmos - ar, vento, aves, insetos, etc, rasgam a sua poesia, criando uma unidade entre o espiritual e o terreno que enforma uma "harmonia vital" que subjaz à visão africana da existência do mundo.
Para Maimona, a ausência de liberdade deve-se à corrupção que prolifera e asfixia o país. Assim, os seus textos colocam-nos perante um sujeito poético que, sentindo-se amordaçado, olha o Mar como um espaço de catarse cicatrizante, cuja contemplação e meditação permite perceber as insatisfações humanas, quer de ordem individual, quer de ordem social: "Descobri os silêncios do teu olhar/entre as noites e as árvores do sonho,/como outrora na pele das águas/descobri a asfixia esguia de teu caminho.".
Escritor prestigiado, João Maimona publicou os seguintes títulos: Trajetória Obliterada, (poesia, 1985); Les Roses Perdues de Cunene, (poesia, 1985); Traço de União (poesia, 1987, 1990); Diálogo com a Peripécia, (teatro, 1987); As Abelhas do Dia, (poesia, 1988, 1990); Quando se ouvir os sinos das sementes (poesia, 1993); Idade das Palavras (poesia, 1997).
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